A contestação urbana em Salvador

O Movimento DESOCUPA participou, na última sexta-feira (15.06), do 2° Seminário Gey Espinheira, que discutiu propostas e potencialidades dos diversos movimentos de contestação que atuam em Salvador. Confira a transcrição da fala de abertura, realizada pela professora Urpi Montoya Uriarte, do departamento de Antropologia da UFBA e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA:

Bom dia a todos os membros da mesa e participantes deste Seminário. É com imensa satisfação que abro os trabalhos deste 2º Seminário Gey Espinheira, especialmente se levarmos em consideração as condições tão adversas em que este Seminário acontece: ele foi adiado uma vez pela greve dos rodoviários; para esta nova data, não tivemos divulgação, a não ser os nossos contatos via e-mail ou redes sociais; por outro lado, estamos no meio de uma greve de alunos, de funcionários e, embora dividida, no meio de uma greve de professores. Então, o fato do Seminário acontecer mostra o quanto os organizadores, a mesa e o público são insistentes, perseverantes, tenazes.

No meio de uma sociedade “líquida” como a chama Bauman, onde tudo é efêmero, principalmente os valores e os ideias, onde somos ensinados a deixar passar, a desistir, a ser condescendentes – porque é mais fácil viver desse jeito -, estamos todos, a meu ver, pelo simples fato de estar aqui, de parabéns.

O seminário Gey Espinheira é organizado por um Grupo de Pesquisa, que tenho o privilégio de coordenar: o Grupo Panoramas Urbanos. É um grupo que reúne mensalmente professores, alunos da graduação e da pós-graduação que partilham a necessidade de um espaço para discutir temáticas urbanas, sejam elas conjunturais, históricas ou teóricas, a depender do nosso cronograma de trabalho. É um grupo, ele também, insistente. Com tantas atividades, com tanta precarização do trabalho docente e da educação nos últimos tempos, o mais fácil seria cada um fazer suas próprias leituras e reflexões. Mais nós insistimos que a reflexão é, por natureza, coletiva. Os que partilharem esta tenacidade e a vocação por estes temas e por estas discussões, sintam-se convidados a integrar o Panoramas.

Dentro do Grupo, há 2 anos, instituímos o espaço dos Seminários Gey Espinheira para pensar, num âmbito maior e de forma sistemática (de 2 em 2 anos), a cidade de Salvador, seus problemas, desafios e saídas.

O nome deste evento permanente foi uma homenagem ao professor de sociologia da UFBA, Gey Espinheira, colega e amigo. Para quem não teve o privilégio de conhecê-lo, direi algumas palavras sobre ele, palavras que deixarão claro, espero, por que o seminário leva o seu nome. Gey era um apaixonado pela cidade, por Salvador, pela vida que se desenvolve no que eu chamo de “espaços autenticamente urbanos”, como aquele Pelourinho que ainda era dividido em sub-espaços específicos como Maciel, Saldanha, Passo, Carmo, e não essa coisa só, pasteurizada por uma intervenção autoritária e espetacularizante; espaços autenticamente urbanos eram também as festas de largo, que ele amava, cuja organização era uma herança dos tempos e não uma imposição gerencial;  espaço autenticamente urbano era também o carnaval, que ele não deixava de freqüentar, porém aquele que não estava dividido em circuitos e muito menos por cordões. Era um apaixonado por espaços autênticos porque só neles é capaz de se desenvolver uma vida autêntica, que reproduz e cria cultura, e não enlatados.

É essa vitalidade que o “urbanismo funcionalista”, o “city marketing”, a tal “parceria público-privado” pretendem apagar em nome de espaços funcionais, ordenados, cleans, seguros. No fundo, querem eliminar os espaços autenticamente urbanos, não só por novos padrões estéticos em vigor hoje, mas principalmente porque sabem que suas misturas e co-presenças de tempos e espaços são geradoras de vida autêntica e elas, por sua vez, com sua vitalidade intrínseca, produzem usos imprevistos, apropriações, e com elas, transformações e subversões. Os espaços, dizia Milton Santos, os espaços de verdade, são, o que equivale a dizer, se transformam. Ser é se transformar. Já os espaços pasteurizados não são, apenas se consomem porque nascem normatizados, controlados, divididos, gerando não vida, mas apenas passagem e irreflexão. Não há transformação possível neles.

Gey Espinheira viveu uma Salvador que muitos de nós não conhecemos, ou conhecemos pouco, e isso lhe dava uma vantagem: ele tinha um ponto de comparação, um marco de referência que não era só utopia. Sem esse marco e num tempo de crise de utopias, muitos de nós, lamentavelmente, perdemos a capacidade de imaginar uma outra cidade, porque achamos que esta é a cidade. Mas esta Salvador entregue ao capital imobiliário, na verdade, não é a cidade, é anti-cidade, é o oposto de cidade. Condomínio privados, vias de transporte privado, bairros privados, centros comerciais privados, festas privatizadas, espaços públicos privatizados. Se a cidade é um conjunto de espaços marcados todos pela vida pública, pela ideia do público, pelos espaços públicos, Salvador é o quê?

Em sua primeira versão, em 2010, o Seminário apresentou um ciclo de palestras sobre esta temática, a que acabo de me referir: a crise de Salvador, advinda do quase total abandono por parte do poder público de suas funções supostamente centrais de planejamento e gestão urbana. Foram 5 excelentes palestras sobre o colapso institucional de uma Prefeitura que dá as costas à grande parte da cidade. Todas as palestras clamaram por um basta! diante do protagonismo do capital imobiliário em Salvador. Mas, de onde virá esse Basta!? Quem está hoje dizendo Basta!? Estas perguntas nos impulsionaram a propor este 2º Seminário Gey Espinheira, intitulado “A contestação urbana em Salvador: propostas e potencialidades”.

Nesta ocasião, por tanto, as falas não são dadas a arquitetos-urbanistas, sociólogos urbanos ou especialistas em planejamento urbano. Os convidados são, desta vez, representantes de movimentos suprapartidários que, em conjunto, denominamos de “contestação urbana”. Trata-se, a nosso ver, de “movimentos” ou “ativismos sociais” – uma distinção conceitual que não cabe neste espaço – que propõem insurgências urbanas coletivas. Porque há as insurgências urbanas individuais, que são essas micro-resistências espontâneas por parte dos cidadãos, essas que se dão nos “espaços autenticamente urbanos” e que são atos que para muitos passam despercebidos enquanto resistências: andar por onde as placas dizem que não é para andar, re-funcionalizar um espaço que foi feito para um fim e as pessoas usam para outro, ficar ali onde se espera que ninguém fique, se juntar ali onde não se quer ajuntamentos… Mas não estamos aqui para falar desse tipo de insurgência e sim de outras: as coletivas.

Como estas insurgências urbanas coletivas surgiram? Com que objetivos? Quem eles conseguem mobilizar? Quais são suas formas de atuação? O quê têm conseguido? Como seus trajetos têm se modificado (casa sejam mais antigos)? Como se avaliam? Quais as perspectivas? Quais as possibilidades? Estamos aqui precisamente para ouvir estas histórias, estes caminhos e propostas feitos por diversos movimentos, muito bem representados nesta mesa. Do Movimento Desocupa, temos Ícaro Vilaça; do Fórum A cidade também é Nossa, temos a Rogério Horlle; do Movimento Vozes de Salvador, temos a Emiliano José; da Federação de Associações de Bairro de Salvador, temos João Pereira; e do Movimento dos Advogados Ambientalistas, temos Júlio Rocha.Finalmente, a mesa conta também com Manolo Nascimento, do Centro de Estudos e Ação Social, que não representa nenhum movimento, mas que, ao acompanhar a luta de vários deles, traz reflexões de quem está de fora, porém de perto, tendo por tanto uma outra perspectiva sobre as propostas e potencialidades destes movimentos coletivos de insurgência urbana.

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