Salvador e seus Pinheirinhos

Contribuiram no texto Débora Didonê, Marta Argolo e Ícaro Vilaça.

A exibição do documentário Pinheirinho: tiraram minha casa, tiraram minha vida na última edição do projeto A CIDADE QUE QUEREMOS, realizada na quarta-feira (3), no Teatro Vila Velha, rendeu um rico debate sobre as diversas formas de violência exercidas pelo poder público na reintegrações de posse que ocorrem Brasil afora. Dirigido por Carlos Pronzato, que esteve presente no debate, o filme narra a truculência da polícia na reintegração de uma área ocupada há oito anos por 2 mil famílias no interior de São Paulo, e a falta de apoio dos governos municipal (da cidade de São José dos Campos) e estadual diante de tanta brutalidade contra os direitos humanos.

Com a presença do Movimento dos Sem-Teto da Bahia (MSTB), suscitou-se no debate o drama dos moradores da cidade de Salvador que foram ou devem ser despejados das áreas de ocupação para ser mandados para bairros distantes e sem estrutura de moradia. “Fui membro da Federação de Bairros de Salvador, uma organização que atuou muito na década de 1980 e existe até hoje, e de lá eu vi nascer muito movimentos. Nossa cidade, em grande parte melhorou bastante. Mas ela era um aglomerado de favelas sem tamanho. A mais antiga passou por algo semelhante ao que ocorreu com o Pinheirinho, ficou famosa como Corta Braço – onde houve muita morte, sangue, luta… Determinação de nosso povo. Porque temos duas reformas em curso, a assépticas, das elites, e a implementada pelas classes populares, feita com suas próprias mãos”, diz o professor Hamilton Luis.

A coordenadora do MSTB, Maura, e outros integrantes do movimento, extremamente politizados e conscientes de seus direitos de moradia, relataram algumas das principais angústias em anos de luta. “O Centro Histórico tem vários casarões, alguns com grande condição de moradia. O estado diz que tudo está caindo aos pedaços, ninguém pode morar. Há prédios reformados e fechados com coisas do IPAC guardadas. Enquanto mulheres que trabalham como baianas e sobrevivem do Centro Histórico de Salvador foram levadas para longe”, conta Maura. Para ela, a condição crítica desses moradores é resultado da falta de vontade política, pois existe estrutura na cidade para que os moradores ocupantes permaneçam em suas casas – sem a necessidade de a prefeitura construir outras em bairros distantes. “Você pode fazer casa de qualidade de 70 metros quadrados. A gente fez isso. Falta vontade política”, completa a coordenadora do MSTB.

Além da violência física sofrida por moradores em reintegrações brutais existe a da perda do sentimento de vínculo com o lugar, com os vizinhos, com a comunidade; a sensação de pertencimento a um território, da relação com os recursos que aquele lugar proporciona. É uma violência que mexe com identidade e tem impactos sociais fortíssimos, como a falta de renda, a dependência química, a depressão, a marginalidade e o suicídio. “O povo das ocupações, quando não tem um serviço – e também falo de mim -, vai para a maré, pesca e tem o que comer. Se saio daqui e vou pra um bairro novo, só encontro mato e estrada. As mulheres marisqueiras alimentam famílias dentro desse processo. O pessoal de Piripiri não arreda o pé dali”, diz um participante do MSTB, que já viu um colega morrer pela tristeza de ser retirado do seu lugar. “Uma das piores coisas que já presenciei na vida foi a reintegração de posse, famílias sendo tiradas de suas casas e jogadas na rua”, conta.

O programa Minha casa, Minha vida também foi discutido, especialmente entre os arquitetos presentes. Na avaliação dos profissionais, permanece a velha síndrome dos bairros populares retirados, longe de escolas, creches, supermercados, postos de saúde, e que exigem dos moradores mais gastos com transporte coletivo – pela dificuldade de chegar à região onde sempre tiveram seu ganha-pão. “Ainda é preciso pensar em como criar uma área urbanizada, com escola, educação, supermercado, esse é nosso trabalho como urbanistas. Deveríamos participar mais para dar nossas contribuições a essa discussão. O ‘Minha casa, Minha vida’ tem que ser melhorado, e isso tem que ser pensado em parceria com os movimentos de moradia”, diz o arquiteto Daniel Colina.

Ficou constatado também que há realmente uma contradição entre o déficit de moradia e os prédios e casas subutilizados em Salvador. “Por que não fazer do Comércio um bairro com habitação e comércio? É um absurdo que metade dos prédios continue vazia ali. Precisamos de 100 mil unidades habitacionais na cidade e temos 80 mil subutilizadas e vazias”, afirma a engenheira (e deputada estadual) Maria Del Carmen. E veio à tona diversas vezes a pergunta: Por que as pessoas de baixa renda são sempre levadas para longe do centro? Na opinião do diretor do filme, Carlos Pronzato, essa prática excludente sempre vai deixar marcas profundas na história da sociedade. “Podem bater, podem matar, mas nunca realmente vão conseguir tirar do mapa tudo o que as pessoas fizeram (e continuarão fazendo) para restituir a dignidade dos sem-teto”, afirma o diretor.

A próxima edição do Projeto A CIDADE QUE QUEREMOS será realizada no dia 13/06 (na Sala Principal do Teatro Vila Velha, às 19h), com a exibição do filme Menino Joel, documentário dirigido pelo italiano Max Gaggino e produzido por Rodrigo Cavalcanti. O filme foi realizado sem nenhum apoio financeiro e está sendo recusado pelos cinemas da cidade.

O pequeno Joel, que sonhava em ser mestre de capoeira, foi morto em 2010 enquanto dormia em sua casa no bairro Nordeste de Amaralina por uma bala disparada a esmo por policiais militares que não apenas assassinaram o garoto como também se recusaram a prestar socorro à vítima. Uma infeliz coincidência marcou este caso, fazendo com que ele deixasse de ser apenas mais uma estatística: o menino Joel teve sua vida roubada pelo mesmo estado que se utilizou de sua imagem encantadora alguns meses antes para fazer propaganda turística ao melhor estilo “Bahia, terra da felicidade”.

CLIQUE AQUI PARA VER O TRAILER DO FILME

**Conheça a história da luta pela moradia em Salvador no livro “MSTS/MSTB: A Trajetória do Movimento dos Sem-Teto”, de Raphael Fontes Cloux.

Anúncios

Uma resposta em “Salvador e seus Pinheirinhos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s