Fórum do Pensamento Crítico

Texto de Albenísio Fonseca

O MOVIMENTO DESOCUPA foi motivo de aplausos durante a abertura do Fórum do Pensamento Crítico, promovido pelas secretarias estaduais da Cultura e do Planejamento, na última terça-feira (28), no auditório do Conselho Estadual de Cultura, sob o tema “Cidades e Festas”. Os aplausos, como um gesto de reconhecimento e legitimidade, ocorreram durante a apresentação do professor Ordep Serra, que se definiu como “um integrante do movimento que tem lutado contra a desregulamentação urbana da capital”.

Sem a presença do então titular da Seplan, Zezéu Ribeiro, o evento foi aberto pelo secretário de Cultura, Albino Rubin, que justificou a iniciativa sob o propósito de que o tema “cultura” seja inserido na agenda dos partidos, ao destacar ser este um ano eleitoral.

Rubin salientou, ainda, que o tema incluía “as cidades’ por conta do ‘expressivo aumento das populações nas áreas urbanas”, ainda que este seja um fator observado desde a revolução industrial, no século XVIII e uma tendência contemporânea singularmente estudada pelo geógrafo Milton Santos, desde meados do século XX. Já a inserção das “festas” na temática foi alegada pela “proximidade” da transcorrência do Carnaval, maior festa popular do estado. Além de Ordep Serra, compuseram a mesa os professores Wlamira Albuquerque, Paulo Costa Lima e Paulo Miguez, todos da UFBA, sob mediação da assessora da Secult, Fátima Fróes.

Wlamira falou sobre o caráter político dos festejos. Ilustrou sua apresentação com uma pintura clássica de Debret sobre o entrudo (denominação do Carnaval até 1896), com negros, maquiados de branco a espargir água sobre outros, como um gesto de divertida transgressão e quebra de hierarquias. Ela aludiu, também, ao rei etíope Menelik II, tema do afoxé Embaixada Africana no desfile de 1897.

“A imagem do poderoso soberano africano que derrotara os italianos em Adwa, na Abissínia, impedindo o avanço imperialista naquela região do continente africano um ano antes, chegava à Bahia ressuscitando com honras festivas os mortos na revolta dos Malês de 1835”. Para a historiadora, “olhar para a rua é olhar para os conflitos da sociedade. As festas mostram esses conflitos, por isso há muita política em uma rua em festa”.

Paulo Costa Lima defendeu que a festividade deve ser “pensada como patrimônio e não meramente como mercado”. Ele sugeriu “políticas do imaginário” no planejamento do Carnaval baiano e fez ver que “não há como pensar o binômio cidades/festas, sem pensar politicamente”. Lima mencionou a “importância e tradição cívica do 2 de Julho” e cobrou o “papel cultural dos diretores de escolas públicas”.

Paulo Miguez voltou a por em xeque a “governança da festa”, em particular a estrutura do Conselho do Carnaval, dada a “representatividade fantasma de entidades que o integram”; sugeriu a “supressão dos carros de apoio nos desfiles dos blocos, pelo espaço que ocupam na avenida”; criticou pré-candidatos à Prefeitura de Salvador pelo “senso comum das opiniões emitidas, no que demonstraram não entender nada de Carnaval” e acentuou que “Momo não irá resolver os problemas que cabem aos governantes”.

Já Ordep Serra optou por concentrar o foco na situação da cidade. Disse que Salvador vive uma “desregulamentação urbana” e que “o Carnaval tende a naturalizar essa situação”. Mencionou a “ocupação dos espaços públicos por camarotes privados”, criticou a “conversão do Carnaval em um festival de cervejas”, e sustentou que “caminhamos para uma barbárie, com as desigualdades sociais transbordado pelas festas”.

Nos debates, após as palestras, destacaram-se questões como o fato das festas populares na Bahia serem organizadas pela área de turismo e não a de cultura; a carnavalização dos festejos juninos no interior do estado; a importância da festa de Itapuã, mobilidade e a perda da decoração como um fator estético fundamental do Carnaval, em Salvador. Planejado para ocorrer durante todo o ano, o calendário com as novas palestras do fórum ainda não foi divulgado.

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