Washington Drummond: Carnaval-*over*

“Infame turba de nocturnas aves”

Góngora

Nem Bakthin, nem Eros. Não mais a antropologia romântica da inversão do cotidiano, não mais a historiografia dos estágios culturais. O carnaval tornou se a experiência *over* do dia-a-dia soteropolitano. Colombina é uma celebridade pornô. Pierrot, pirou. O carnaval da paz é o inferno de cordeiros, do povo do isopor e do espetinho, eles mesmos enredados nas malhas desse paraíso artificial.

Num filme de Bergman, o ovo de serpente possibilitava antever os destinos da cultura alemã rumo ao fascismo. Em outro sentido, a festa momesca nos permite ver a hiperrealização da vida da cidade: o erotismo tornado pornografia, a música *no stop*, o devir turístico sacralizado como *son âme* e sobretudo a sua *espoliação acelerada do espaço urbano*. Num movimento elíptico essas formas fantasmáticas se cristalizam e se deixam ver, transparentes e resolvidas. Retirada a parte maldita, elas podem circular, sem freios, orbitar em torno da cidade que vivemos, se imiscuir no imaginário urbano, contaminando-o. Elas são de certa maneira totalitárias e malignas, circulam sem cessar, fantasmagorias que performam uma distopia urbana. O carnaval torna-se uma máquina celibatária que se pensa produzida pelos próprios esforços. Observem-se os indefectíveis abadás indiferenciados; as músicas que se disseminam e se repetem, cantadas em todos os trios ; a monoritmia; as cantoras que se replicam, repetindo vícios vocais e por fim, os clientes dos blocos concentrados numa mesma gama social. Toda a porosidade desse espaço está cada vez mais fechada, impedindo trocas culturais. Então, pipoca, cordeiro, espetinho e isopor são pólipos que devem ser extraídos cirurgicamente, gerando essa espécie de espaço asséptico fantasmado pela nova proposta de uma cidade do carnaval.

Quando um dos expoentes desse carnaval-*over* propõe a total privatização do espaço carnavalesco, um tipo de super-camarote, cidade da alegria fechada para aqueles que não podem pagar, hipersimula o processo urbano que estamos vivenciando: a agressiva re-urbanização da cidade comandada pelo capital imobiliário. A distopia carnavalesca assume ares futurísticos que entram em conssonância com a *Salvador Capital Mundial*. Futuro *blade runner*piorado, urbis condominizada, deslocando o carnaval *passé* setentista.

A beleza, o mistério e o segredo, cuja expressão estética mais acabada foram as poderosas imagens que o recém falecidofotógrafo, Mario Cravo Neto, nos legou, são, hoje, dejetos desse processo. Celebravam, em pugente colorido, a heterotopia urbana, não enquanto esfera onírica, mas tecida nas pequenas práticas disruptivas dos filhos endemoniados da anarquia carnavalizada. Chega de saudade! O carnaval-*over * nos ensina o caráter da privatização. Assim como a cidade, ele só se realiza partindo de um esforço conjunto, alicerçado por pesados investimentos públicos de ordem estadual e municipal (policiamento, limpeza, saúde, transporte etc) que mantém a festa e garantem os lucros apropriados por um pequeno grupo empresarial. Aliás não é só o folião que termina * detonado*, com ele toda a precária infraestrutura da cidade.

Como estamos analisando as fantasmagorias carnavalescas como transparências do destino urbano de toda a cidade, entremos em alerta. Se, segundo Michelet, *cada época sonha a seguinte*, estamos em plena gestação de mais uma produção holiwoodiana nos exauridos trópicos : em 3D, o mais novo filme catástrofe do «espetáculo de nossa miséria».

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WASHINGTON DRUMMOND é graduado em História – UFBA em 1989, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas (FACOM-UFBA) em 1998), Doutor em Arquitetura e Urbanismo, (PPGAU-UFBA) em 2008), com Bolsa Sandwich CNRS/Laios – Paris (2006). Professor de História Contemporânea e Teoria da História da Universidade Estadual da Bahia, Professor-Colaborador do Programa de Pós Graduação em Crítica Cultural – UNEB, Pesquisador Associado do Programa de Pós Graduação da FAU-UFBA. Tendo elaborado Tese de Doutorado sobre as relações entre estética e urbanismo, leciona disciplnas na graduação e pós referentes ao temas: históriográfia e memória (Pós-Crítica/UNEB), estética urbana e teoria da história e urbanismo (FAU-UFBA).

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Uma resposta em “Washington Drummond: Carnaval-*over*

  1. Gente, o texto é interessante, cheio de referências bacanas e escrito por quem sabe do assunto! Sem dúvida! Gostei muito de ler e não dá pra não concordar – de fato, é isso – ali, pelo menos.

    Mas também acho legal lembrarmos que esse não é o único “Carnaval de Salvador”. No dia 11 de fevereiro saiu o bloco “De hoje a oito”. Dá pra ver mais de mil fotos aqui nesse link: http://www.flickr.com/photos/inaialua/6826627775/

    Um bloco não privatizado, totalmente organizado por pessoas (e não por empresas) e que não exige pagamento – todos podem fazer parte. Todo o dinheiro necessário pra sua saída foi conseguido através da colaboração das pessoas na organização de sambas, festas e feijoadas. Esse bloco é uma possibilidade realizada: não sem esforço mas com muita alegria.

    E “alegria é a prova dos nove”! Bem disse Oswald de Andrade e nos relembrou Suely Rolnik em algum de seus textos.

    Feliz Carnaval!

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