Sete tópicos sobre o MOVIMENTO DESOCUPA – Fabrício Ramos

O Desocupa precisa, então, pensar-se como um movimento que nasce para enfrentar e também para construir – e quer fazê-lo…


1.

O Desocupa Salvador nasceu como um flashmob de protesto contra a ocupação ilegítima (embora supostamente legal) do espaço público, emblematizado pela instalação do Camarote Salvador na nova praça de Ondina, o empreendimento faraônico de ferro e lonas ocupando a praça pública evidencia perversamente o caráter elitista e excludente que passou a imperar na nossa maior manifestação festiva, o Carnaval de rua baiano. A usurpação de espaços públicos, aliás – seja para camarotes medíocres ou para favorecer a especulação imobiliária – resulta dos vícios do sistema político representativo, que se encontra abertamente sequestrado por grupos de poder financeiro, sobretudo de máfias empresarias, que são os corruptores (e financiadores) de seus vassalos democraticamente eleitos pelo povo. Diante disso, o movimento descambou para o “Desocupa João” exigindo o impedimento do (des)prefeito João Henrique, o pior do Brasil, criticando veementemente a Câmara de Vereadores, o Governador Jaques Wagner e questionando a forma de envolvimento dos partidos políticos.

2.

O Desocupa nasce relativamente forte! Tem franco apoio de parte importante da mídia, especialmente das mídias das redes; participam ativamente do movimento ex-secretário de Governo do Estado, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia, sociólogos, acadêmicos, jornalistas, artistas, coletivos e sindicatos, além de gente conhecida do cenário cultural da capital e de diversas pessoas, de todas as idades, que acompanham o movimento nas redes. E nasce também em momento politicamente delicado – ano de eleições municipais. Mais ainda, o movimento emerge num momento de vácuo político na esfera municipal – João desocupará o lugar de qualquer modo no fim do ano, quem, ou o quê – o ocupará?

3.

É nesse contexto, cheio de armadilhas, que o movimento busca energicamente uma forma de se fortalecer e atuar efetivamente no contexto político da cidade, sem abrir mão de sua independência, de sua autonomia e, sobretudo, de seu caráter essencialmente espontâneo e aberto. Espera-se, entretanto, que dele brote um sentido amplo de participação que renove a poluída atmosfera política da cidade. O movimento, portanto, nasce com responsabilidades significativas. Deve, penso, participar e – quiçá – influenciar o debate político eleitoral. Entretanto, como fazê-lo? Os foruns no facebook apontam questões fundamentais, tal como a levantada por Rildo Polycarpo Oliveira : “observar demandas públicas legítimas (e as eventualmente construídas, forjadas…); observar programas dos candidatos (considerando inclusive que nem os candidatos nem os eleitores estão muito preocupados com os programas…); constituir uma dinâmica de politização ‘profana’ (fora da sacralidade infernal do partidarismo e dentro da mundanidade real da vida: imanentista e realista): uma politização conduzida programática e processualmente, na intúito (talvez primeiro) de estilhaçar a visão corriqueira segundo a qual a nossa relação com candidatos políticos se faria na ordem do favorecimento…;”

– Eu complemento sugerindo a ocupação sistemática das praças públicas nos bairros, realizando foruns abertos intinerantes, implicando as demandas públicas setoriais de cada bairro, através da participação de seus moradores, e configurando, assim, popular e horizontalmente, o arcabouço panorâmico das legítimas demandas sociais da cidade.

4.

O Desocupa precisa, então, pensar-se como um movimento que nasce para enfrentar e também para construir. Que busca a ação efetiva com fins imediatos, mas sem perder de vista a sua permanência indefinida, ultrapassando contextos pontuais e ampliando o olhar estratégico até vislumbrar um objetivo abstrato, mas imperativo: o resgate da Política através da ampla participação popular.

5.

Independente do alcance efetivamente das metas, cujos métodos implicarão nos mais ardentes debates, o processo em si de discutir e buscar realizar os objetivos é transformador, estimulante e revitalizador. Parece pouco? Passeie pela cidade, sinta toda a sua beleza e a sua força, que à revelia do abandono da Política institucionalizada, pulsa viva em todos os cantos e recantos da verdadeira Salvador – porque há a falsa…

6.

Quanto ao PDDU, um Plano de Negócios de duas ou três empreiteiras sob o disfarce de um Plano Diretor Urbano, ele representa a questão mais palpável a ser abordada de forma enfática. Não obstante o Governo Wagner se refira ao Plano como o “PDDU da Copa” e tenha mesmo criado uma secretaria estadual da Copa, é aterrador viver em Salvador e pensar que um Governo de tal porte, aliado a máquina Federal, planeje a capital do estado para um evento esportivo e não para o Futuro, para a população e para vida. Uma secretaria especial da Copa ofende qualquer pessoa: desde os professores com salários arrochados, aos estudantes que sofrem com um transporte público caro e precário, aos moralistas que acusam corrupção mirabolante da construção do metrô, e até mesmo a Polícia Militar, em greve na luta por melhores condições de trabalho.

7.

Em suma, Salvador começa a reagir, seja como for. A Política é a atividade por excelência dos seres humanos, se grupos a sequestraram e a conduziram para o lamaçal repugnante dos vícios, das oligarquias, das trapaças, da exploração e das injustiças autoritariamente geradas e mantidas para que restritos grupos se beneficiem do estado de privilégios que é o Brasil em detrimento do estado de Direito dos ideais de todo tipo, e apenas ideias, – enfim, se sequestraram a Política, cabe a nós resgatá-la. A História do Brasil, se muito mudou, é ainda a mesma de sempre: a luta e o choque entre grupos oligárquicos, compostos de aristocracias agrárias e agora empresariais, que controlam a estrutura do estado e das leis através da Política, e o povo, esse conceito abstrato que une a todos nós, os 99% da população, numa enorme, complexa e diversificada força viva. E tal História começou aqui, na Bahia, praticamente em Salvador, a primeira capital da colônia! – Nada mais digno, por fim, que aqui também se inicie uma nova etapa na nossa História.

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Uma resposta em “Sete tópicos sobre o MOVIMENTO DESOCUPA – Fabrício Ramos

  1. O movimento DESOCUPA é a expressão da insatisfação dos/as cidadãos/cidadãs com os rumos de nossa cidade. Além das entidades do movimento social organizado, com suas virtudes e defeitos, precisávamos da voz daqueles que embora não pertençam a nenhuma entidade têm uma visão crítica e querem expressar o seu pensamento e indignação de forma horizontal e diversa. A relação com este movimento não pode se dar nos moldes tradicionais de disputa de poder interno mesmo porque não há cargos ou estruturas para disputar. É claro a decisão sobre as manifestações e rumos do movimento precisão ser discutidas de forma ampla e plural. Sem dúvida é uma experiência inovadora e contemporânea. O desafio é coabitar com as expressões tradicionais da sociedade civil e colocar os objetivos cívicos acima das vaidades de todas as ordens.

    João Pereira
    FABS

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