Reflexões sobre o DESOCUPA do dia 01.02 e sobre o futuro

Além da excelente análise de Ícaro sobre a tentativa de controle da fala do microfone ou a disputa do poder/ discurso, que apontou para a necessidade de auto-sustentabilidade para comprarmos equipamentos e garantirmos pluralidade e horizontalidade nas falas das próximas atividades, quero compartilhar outras reflexões sobre ontem.

Quero deixar claro que não sou contra a presença de partidos, já que o Movimento é plural, e os partidos têm seu papel, importância e responsabilidades. Acredito que alguns desses grupos partidários que lá estiveram foram éticos, assumiram uma postura de escuta e diálogo com a sociedade. Mas houve grupos que tentaram surfar, num oportunismo eleitoral claro, num tipo de discurso que tentou insinuar que o Movimento devia fazer sua escolha pelo projeto do partido x. Estejamos atentos com isso, não vamos cair nessa redução! A história política de Salvador, da Bahia e do Brasil já nos deu fartos exemplos que não se faz transformação com adesão e filiação a priori ao grupo a, b, c ou d. Esta aí um dos cernes da crise da representação.

Para mim a grande inovação e possibilidade do Desocupa é se constituir enquanto ESFERA PÚBLICA e construir coletivamente conteúdos programáticos de ações transformadoras para a CIDADE QUE QUEREMOS. Longe de representações estáticas, totalizadoras e homogeneizantes, essa perspectiva de abertura do espaço para o futuro e para a política requer o reconhecimento da multiplicidade e da alteridade dos diferentes agentes que tecem a Cidade. A ativação desse movimento requer o reconhecimento dos conflitos manifestos ou latentes.

É por isso que na minha leitura sobre a manifestação de ontem as falas MAIS IMPORTANTES foram as da COMUNIDADE QUILOMBOLA DE RIO DOS MACACOS e a dos USUÁRIOS DOENTES MENTAIS do SUS. Ouvi-los e valorizar suas falas e representações autônomas, por eles mesmos, significou reconhecer as suas particularidades e demandas específicas como força propulsora de criação dos “espaços de esperança” dos quais nos fala David Harvey (2006).

Com e pelas falas dos Quilombolas e usuários do SUS, poderíamos, por exemplo, incorporar como programa de ação ou projeto de Cidade pelo Desocupa a priorização as políticas de promoção da igualdade e da Regularização urbanística e fundiária dos territórios quilombolas, bem como a qualificação da política de saúde para um adequado atendimento aos doentes mentais. Assim como podemos, nos reportando à primeira manifestação do Desocupa, construir um programa de desprivatização dos espaços públicos, disponibilizados pela Prefeitura às empresas de Camarote praticamente sem nenhuma contrapartida para a sociedade.

Num sentido suscitado pelo instigante Cientista Político Ernesto Laclau (recomendo leitura), as particularidades das demandas colocadas por agentes geralmente invisibilizados, longe de inviabilizar a constituição de identidades políticas mais amplas, como falsamente prega o discurso de hegemonia de identidades únicas e fixas, colocam-se enquanto unidades básicas da ação social. Tais ações fazem emergir atores emancipatórios, por trás dos quais se encontram associações e afetos, que podem contaminar e transformar essas ações na expressão de tendências muito mais gerais (LACLAU, 2008).

O que quero dizer com tudo isso, enfim, sem fim, é que o Movimento Desocupa tem que abrir cada vez mais Esferas Públicas Democráticas que reconheçam e permitam ecoar as vozes autônomas dos Outros e Outras dessa Cidade para uma construção programática e de conteúdo que especifique, materialize e localize circunstancialmente nossos horizontes, geralmente tão abstratos, como o Direito à Cidade, Igualdade, Justiça Social, Democracia, Não Segregação, Não Racismo e tudo o que vier. Então não sejamos ingênuos, nem caiamos e nenhuma armadilha que nos leve a antecipar nenhum debate eleitoral de escolha de candidatos. Vamos sim construir nossos programas e projetos para essa Cidade, numa perspectiva inclusive muito além das eleições, até porque não é só o Estado que temos que disputar, precisamos influenciar na construção de novas formas culturais e de conduta de nos portarmos e agirmos como cidadãos, como profissionais, como grupos, como pesquisadores, como Mulheres e como Homens.

Glória Cecília Figueiredo é Urbanista, Diretora-Presidente da Sociedade Brasileira de Urbanismo e membro da Federação Iberoamericana de Urbanistas.

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