Eduardo Galeano

“Eu estava na Praça do Sol e aqui encontro a mesma energia de dignidade e o mesmo entusiasmo. Esse entusiasmo é uma vitamina E, ‘E’ de entusiamo. Que vem de uma palavra grega ‘enþúsiasmos’, que significa ‘ter os deuses dentro’. E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas, ou da natureza, das montanhas, dos rios, enfim, eu digo: isso é o que faltava para convencer-me de que viver vale a pena. Então estou muito contente de estar aqui, como estive antes na Praça do Sol, porque isso é a prova de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito além das mesquinharias da realidade política em que se ganha ou se perde… e da realidade individual também, onde só se pode ganhar ou perder na vida. E isso importa pouco em relação a esse outro mundo que te espera, esse outro mundo possível, que está na barriga deste. Este é um mundo infame, eu diria! Não nos incentiva muito, é um mundo mal nascido, mas existe outro mundo na barriga deste, esperando. Este é um mundo diferente, diferente e de parto difícil. Não é fácil que nasça. Mas certamente está latente neste mundo que ‘é’. Há um mundo que ‘pode ser’ latente no mundo que ‘é’. Eu o reconheço nessas manifestações espontâneas na Praça Catalunha, na Praça da Sol em Madri, são as que pude acompanhar afortunadamente. Sei que existem muitas outras e elas são a prova disso. E alguns me perguntam: ‘O que vai acontecer? E depois? O que vai ser disso?’. Eu simplesmente respondo a partir da minha própria experiência e digo: ‘bom… nada!’. Não sei o que vai acontecer! E tampouco me importa muito o que vai acontecer! Me importa o queestá acontecendo. Me importa o tempo que ‘é’. E o que ‘é’ esse tempo que se anuncia sobre outro tempo possível que ‘será’. Mas o que que acontecerá no fim eu não sei! É como se me perguntassem, toda vez que me apaixono, quando vivo uma esperiência de amor a fundo, quando sinto que vivo e não me importa se morrerei nesse momento mágico do amor, quando este acontece… por isso digo: ‘bom, nada!’. O amor é como isto, é ‘infinito enquanto dura!’, e é importante que seja infinito enquanto dura. Não temos que planejar tudo como estivéssemos fazendo o balanço do banco! Assim: dívida, balanço, saldo! O que se espera? Probabilidades. Vamos consultar as meninas super poderosas, as meninas todas poderosas, esta que se chamam ‘Standard & Poor’s’. É um nome muito eloquente, mas que significa ‘média ou pobreza’. Vejamos o que diz a ‘Média ou Pobreza’, o que nos espera? E o que me importa a merda que nos espera? Esses tecnocratas de merda são uns ignorantes! Não sabem nada de nada e ganham salários altíssimos… e em cada crise que eles desatam acabam aumentando suas fortunas! Porque são finalmente recompensados por essas façanhas, que consistem em arruinar o mundo.

Esse é um mundo ao contrário, que recompensa a seus arruinadores, ao invés de os castigar! Não há um só preso entre os banqueiros que provocaram esta crise no planeta inteiro. Nenhum preso! E do outro lado, há milhares de presos por terem consumido maconha, ou por terem roubado uma galinha! Milhares de presos! É um mundo ao contrário, um mundo de merda. Mas não é o único mundo possível. E a cada vez que eu me junto a essas concentrações lindíssimas de gente jovem eu penso: Não, há outro mundo que nos espera. Este mundo de merda está grávido de outro. E são os jovens que nos levam para frente. Esses jovens excluídos pelas seleções regidas pelos interesses dos partidos políticos. E esses jovens já não votam! Eu venho agora da América do Sul. Os jovens chilenos não votaram no Chile. Dois milhões de jovens chilenos não votaram! Não votaram porque não acreditam na democracia que lhes oferecem. E agora quantos jovens não votaram na Espanha? Nem sei quantos, não foram contados. mas dentro dos dez milhões de espanhóis que não votaram deve haver muitos jovens que não votaram. E não votaram porque não acreditam nesse democracia que lhe oferecem. E não achem que não não acreditam NA democracia, não! Mas NESTA democracia manipulada, nesta palavra sequestrada pelos banqueiros, pelos políticos mentirosos, pelos artistas de circo que oferecem uma pirueta diferente a cada dia.

Havia um velho político no Uruguai, morreu há muitos anos, que não era revolucionário nem nada, era um político do sistema. Mas era um homem que conhecia a vida mais que muitos outros… Quando lhe ofereciam um candidato a deputado na lista do Partido Nacional – se chamava Herrera, o velho Herrera, falava ‘axim’ fanhoso e tal – e lhe diziam: ‘que você acha se indicarmos para senador o fulanito?’. E ele: ‘Não, não, não! Esse é um redondo!’. Ele chamava de ‘redondo’ aos que ficavam redondos de tanto dar voltas, e é verdade! Na realidade política atual há uma imensa quantidade de redondos, que ficam redondos de tanto darem voltas… e os jovens tem culpa de não acreditarem nos ‘redondos’? Ou são os redondos que tem culpa de que os jovens não acreditem neles? E por isso eu gosto de estar aqui conversando. É disso que gosto: de jogar conversa fora. Se você tivesse pedido para oferecer minha versão do destino da humanidade, teria dito ‘não!’. O que eu gosto é de jogar conversa fora, conversar com os meus iguais. Porque somos todos iguais na luta por uma vida diferente. E tomara que isso continue vivo, por senão… por que merda viver? Se não for porque acredito em algo melhor que isso que é o que me espera.

[…]

Não quero vir dizer nenhuma mensagem para a humanidade. Eu estive conversando com você, me gravaram e tal. Tudo bem, mais nada! Mais do que isso não posso, porque não sou guru de nada, nenhum grande sábio, nada. E além disso, te confesso: os intelectuais me dão pena! Eu não quero ser um intelectual! Quando me chamam de distinto intelectual, digo: ‘Não, eu não sou intelectual’. Os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo. Eu não quero ser uma cabeça que rola por aí. Eu sou uma pessoa, sou uma cabeça, um corpo, um sexo, uma barriga, tudo! Mas não um intelectual, esse personagem abominável! Como dizia Goya: ‘A razão cria monstros’. Cuidado com quem somente raciocina. Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. E quando a razão se separa do coração, comece a tremer, porque esse tipo pode levar ao fim da existência humana no planeta. Eu não acredito nissso. Eu acredito nessa fusão contraditória, difícil mas necessária, entre o que se sente e o que se pensa. E quando aparece um que somente sente mas não pensa, digo: esse é um sentimental. Mas se for um que só pensa, mas não sente, digo: ‘ai que horror, este é um intelectual!’. Que coisa espanstosa, uma cabeça que rola! Eu não quero ser uma cabeça. […]

Me interessa a sabedoria que combina o cérebro com as tripas. Essa que combina tudo que somos. Tudo, sem esquecer nada. Nem a cabeça que pensa, que também é útil também. Mas cuidado, porque a cabeça que pensa sozinha é muito perigosa. É como o dinheiro. Agora há uma espécie de… como dizer, ‘hino’ que se lança todo dia, esse louvor ao dinheiro, como dizem alguns colegas escritores. ‘Ai, que maravilha a liberdade do dinheiro…’. A liberdade do dinheiro é inimiga da liberdade das pessoas. Muito cuidado com o dinheiro livre. Dinheiro livre é muito pior que um animal selvagem livre. Não, dinheiro livre não! O dinheiro livre aprovou as maiores catástofres da humanidade. O importante é que nós, as pessoas, sejamos livres – e plenamente conscientes de que somos parte da Natureza. Esse foi o mandamento que Deus esqueceu: ‘Serás parte da Natureza’, ‘Obedecerás a Natureza da qual faz parte’. Deus se esqueceu porque estava ocupadíssimo, mas ainda estamos em tempo de recuperá-lo”.

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qualquer interessado pode ser colaborador do site do MOVIMENTO DESOCUPA! basta enviar um email para movimentodesocupa@gmail.com

aqui a liberdade de expressão é respeitada, ouviu Dra. Lisbete?

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